Reflexões no Congestionamento - Por Luciano Pires

Rush na Avenida 23 de Maio: pausa para a reflexão?
Não tem como resumir São Paulo. Ela é “oito ou oitenta”. Ou você ama, ou odeia. Mas só ama quem a conhece bem, quem entende, quem sabe da história, quem viveu a São Paulo de 20, 30, 40, 50 anos atrás…
A cada momento, a cidade ganha novas histórias, escritas de forma caótica, todas ao mesmo tempo, por milhões de pessoas. O site www.saopaulominhacidade.com.br foi criado para reunir essas experiências, como o texto Um Momento no Congestionamento, escrito por Roberto Augusto Fernandes:
Então foi assim…
Ki Ki (buzina o motoboy) e olhei no espelho, nada de novo, mais um motoboy passando, a Avenida 23 de Maio lenta como sempre e, no congestionamento… um retroceder no tempo e as imagens começaram a se formar, como num gigante quebra-cabeça que ia se encaixando… Meu Deus! Pensei como o tempo passa rápido… e lá estava eu visitando o passado… e lembrando de alguns programas de rádio, esse companheiro fiel fazia um marco no tempo…
Lembro-me das primeiras emissoras de FM: Pan 2, Eldorado. No AM, Excelsior “a máquina do som”. Onde andaria hoje Antonio Celso, que era inigualável em seu programa “Música no Tempo”, onde ele contava um pouco da história da música e seus autores? A Difusora, concorrente saudável da Excelsior, com as paradas dos hits americanos… Como era bom apreciar e quase que estar em campo com as narrações do Osmar Santos, na rádio Jovem Pan e depois Globo, um mestre em criar imagens na cabeça do torcedor, que grudado ao seu rádio de pilhas vibrava com as emoções criadas nas frases e bordões onde ele dizia: xiruriruri, xirurirurá… e o torcedor ia junto… Ih qui goooooollll… Magistral… Ainda não arranjamos alguém perto no talento de nos emocionar ao ouvir o futebol… E o “Show de Rádio”, que era imperdivél na Pan, após as transmissões, com os torcedores marcantes… Didu Morumbi, Zéca Zifio, a Nega, e tantos outros…
E sem falar nas narrações românticas do Fiori Gigliotti na Bandeirantes… Quem pode esquecer? Quando ele narrava: O tempo passa… Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo… Aguenta coração… E quando era a hora do gol, ele dizia: é fogo, é fogo, é goooolllll, do moço que veio do interior, uma beleza de gol!!!!
E o pensamento continua viajando… Como não lembrar dos programas do Hélio Ribeiro, que dizia com sua voz inconfundível: sabe quem? Sabe quem? Quem não se lembra das versões das lindas músicas, das mensagens, dos improvisos? Ele dizia: esse programa é ouvido por pessoas de alta sensibilidade. Era tão bom e talentoso que os fãs criaram na internet o Memorial Hélio Ribeiro pra matar a saudade de quem o conhecia e mostrar, pra quem está chegando agora, como ele dizia ao recordar alguma bela canção…
Nesse tempo, chegava por aqui o videocassete, o G9, o mais famoso da época, até se pagava em consórcio, e em dólares! Esperei uns meses… Telefone? Ah! Quem queria tinha que ter a sorte de comprar um plano de expansão da Telesp. Em 24 ou 36 meses…
O Corinthians quebrava o jejum de 21 anos na fila do Paulistão, lá pelo ano de 1977… Tinha o Biro-Biro e tantos outros… No comando o presidente Vicente Matheus, que figura… O Fusca ainda imperava, o 1.300, o Fuscão… O petróleo subia de preço, a primeira crise, o álcool começava se desenhar como a salvação dos motoristas… Quem dera!
Nos bailes, a moçada ainda dançava a dois, de rosto colado. Dancin Days ainda não tinha chegado e os Bee Gees, Elton John imperavam. Roberto, na melhor fase, do terninho e do cravinho… “Você foi o caso mais antigo, o amor mais bonito”… Que tempos!!!
O metrô ia do Jabaquara até Santana. Os radares, lombadas eletrônicas, amarelinhos? Nem pensar… Rodízio? Só dos pneus do Fusca! A maior inovação era o TKR, o toca-fitas do momento…
Chegava em poucos anos o fim da ditadura, eleições indiretas, Diretas Já, Collor… Bom, política deixemos de lado… E de repente… Kiki, Kiki! Mais um motoboy, a buzina do carro de trás também, o trânsito andou… Voltei a 2006… Na Avenida 23 de Maio o trânsito continua lento, na Avenida dos Bandeirantes, tudo parado, na Marginal Tietê congestionamentos da ponte da Vila Maria até o Cebolão, diz o rádio! Lá vou eu, como tantos paulistanos na busca do pão de cada dia… De olho amarelinho, no radar, no motoboy, no rodízio, no relógio…


