Mais amor

Quais assuntos andam fazendo sucesso com a multidão que embrulhará amanhã o peixe com a notícia de hoje? O calor infernal que transformou o planeta todo numa sauna a vapor, que coloca a nocaute comentarista esportivo no ar e nos faz começar a acreditar nas profecias apocalípticas? O dilúvio que castiga São Paulo há mais de 40 dias e conduz o trânsito ao caos todo fim de tarde? As bizarrices que andam proliferando na Internet sobre preparativos para o Carnaval, que incluem mutilações na ponta do bisturi no playground e casa de máquinas? O programa de TV que transforma seres humanos fúteis, vazios e ignorantes em heróis e mártires a serem espiados? O BBB que lobotomiza e transforma cabeças pensantes em neurônios em estado de coma induzido, criando uma massa amorfa que o acompanha e ampliando a fofoca e a falta de ética a nível nacional? A temporada nova dos seriados favoritos na TV a cabo? Nada disso! Ainda faz sucesso o velho assunto favorito de todos os tempos. L’amour, toujours l’amour!

As colunas dessa humilde datilógrafa campeãs de audiência são aquelas que filosofam sobre ele. O amor. Vamos a mais uma?

À medida que crescemos, vamos fazendo na cabeça aquela imagem do homem ideal, do príncipe encantado perfeito que está sempre com o cabelo impecável, mesmo depois de enfrentar o dragão. Atribuímos a ele quase sempre, em devaneios, as qualidades de ser alto, forte, herdeiro de um superimpério, só para começar. A essas qualidades vamos acrescentando outras ao longo da jornada à procura do tal: tem de ser como o papai (ou o exato oposto, se for o caso), bonito como o ator de Hollywood, capaz de formar uma família perfeita como as das propagandas de manteiga ao ar livre num dia ensolarado, ter a alma de um poeta, como o Chico Buarque (mas não a voz dele!), ou como Tom Jobim (mas que não vire o caneco), acordar com bom hálito, entender a TPM, gostar de acompanhar-nos às compras no shopping, metrossexual “pero no mucho”, com o QI do Einstein e a sensibilidade de um boêmio, um toque charmosamente europeu, vegetariano que não deixe cervejas sobre a mesa do bar feito troféus, e que goste de se exilar em Paris uma vez por ano. E como todas temos uma Cinderela/Jason dentro de nós (que tentamos matar, mas ela ressuscita de vez em quando), seria bom que também pudesse vir a ser um bom provedor caso a gente precise, enquanto nossos filhotinhos precisarem de assistência técnica especializada de mãe com arquitetura glandular capaz de produzir leite quentinho. Bem, assim que encontramos um sujeito que pensamos ser especial, já imaginamos como ficaria nosso nome com o sobrenome do desavisado.

Só que acontece uma novela parecida com nossos sonhos na cabeça dele.

Pensa que ele está  vendo a gente ali na frente? Na-na-ni-na-não. Ele está vendo o que quer ver: a princesinha meiga dos sonhos de menino dele, e ainda por cima que cozinha tão bem quanto a mãe dele. Nem imagina que precisa hidratar a pele toda noite, esfoliar toda semana, esticar as madeixas com formol, pensa que já acorda linda, com a chapinha prontinha, depilada, as unhas sempre feitas e constantemente faminta por sexo.

Depois de algum tempo, os casais começam a se ver como realmente são: gente de verdade, não o sonho idealizado por anos. Carências, ilusões, expectativas e cobranças dão uma mistura bombástica para qualquer relação. É inevitável, por sermos humanos, que nossas expectativas não sejam todas atendidas. Só se desilude quem se ilude. Quando exigimos de algum ser humano certa divindade e extrema perfeição, tiramos dele aquilo que ele tem de mais precioso: a liberdade de ser gente, de ser imperfeito, de ser humano.

Mas, acredite, caras sensíveis, que choram no cinema, que acreditam em Deus e em pagar a conta do restaurante, que usam perfume francês, sabonete de glicerina e se viram um pouco na cozinha existem. Se o cara perfeito não existe, entre ele e o genérico do que você gostaria e merece, está o cara real. O verdadeiro amor vai além das expectativas, rompe com toda superficialidade.

Nos relacionamentos, quando conhecemos alguém e nos interessamos, não vemos como ele é de verdade, mas sim como gostaríamos de vê-lo. A gente idealiza o outro, ignora os defeitos e exagera as qualidades. Aí depois de um tempo de convivência, conhecemos a pessoa melhor e toda aquela perfeição vai dando lugar a uma série de defeitos, que óbvio, acaba nos desagradando. E isso por quê? Porque a gente idealizou demais. Por outro lado, passada essa fase de encantamento, os relacionamentos (pelo menos alguns deles) acabam ficando mais maduros. A relação se torna algo de verdade.

Apresento-lhe, hoje, o amor como um belo desafio e lhe peço: permita que seu coração se encante com as fraquezas e as fragilidades existentes no coração humano. Não existe seguro contra o risco de amar.

Saia, circule, vá  à praia, ao shopping, ao curso de línguas ou de vinhos e você vai acabar encontrando com ele por aí quando menos espera. Seguramente. Nem que fique “menos esperando” por alguns anos. Nunca desista de encontrar o amor. Vá atrás do que quer.

Tenha uma semana inspiradora,

Barbara Reiter – autora do livro O Poder Feminino – Matrix Editora



Confira outros posts deste autor


Todos os direitos Reservados © 2008 - As Mais +