Bissexto - Por Luciano Pires

Hoje vou contar de onde vem essa história de ano bissexto e como os vários calendários tentaram resolver a confusão da contagem dos dias ao longo da história. Em 2008, tivemos esse dia a mais. E você, o que faria se ganhasse um dia de presente? Um dia só seu, que não contasse no calendário?

Começando a entender o Bissexto

Para entendermos como são montados os calendários, trago um texto de Marcelo Sávio, chamado A Matemática dos Anos Bissextos. Veja que interessante:

Em nosso calendário, chamado Gregoriano, os anos comuns têm 365 dias e os anos bissextos têm um dia a mais, totalizando 366 dias. Esta informação praticamente todo mundo sabe, mas como é que funciona esse lance de anos bissextos, hein? Muitas “regras populares” foram criadas para calcular anos bissextos, do tipo:

“Todos os anos que sejam múltiplos de 4 mas que não sejam múltiplos de 100 (terminem em 00) são bissextos”. Mas será que isto está correto? E o ano 2000, que foi bissexto e contrariou essa regra? Bom, neste caso é necessário adicionar um “detalhe” à regra, que ficaria assim: “Todos os anos que sejam múltiplos de 4 mas que não sejam múltiplos de 100, com exceção daqueles que são múltiplos de 400, são bissextos”.

Começou a confusão… Mas, por quê? Quem inventou esta regra? Por qual motivo? Com base em quê foi criada?

A coisa começa em 238 a.C. Em Alexandria, no Egito. Durante a monarquia helenística de Ptolomeu III, foi decretada a adição de 1 dia a cada 4 anos para compensar a diferença que existia entre o ano do calendário, com duração de 365 dias e o ano solar com duração aproximada de 365 dias + 6 horas.

Esse excesso anual de 6 horas, após 4 anos completava 24 horas, 1 dia extra, que ia sendo agregado a cada quatro anos, causando deslocamentos das datas que marcavam o início das estações.

A programação das épocas de semeaduras e colheitas era baseada no calendário das estações. Qualquer diferença nesse calendário afetava a agricultura, que era base da economia dos povos antigos.

Mas aquele decreto de Ptolomeu III, de agregar um dia a mais a cada quatro anos, não teve a aceitação necessária e as discrepâncias permaneceram na contagem dos dias.

Duzentos anos depois daquele decreto de araque do rei Ptolomeu, em 46 a.C., o imperador romano Júlio César, retomando as idéias helenísticas, resolveu intervir no sistema de contagem do calendário para corrigir mais de 3 meses de desvios acumulados até então e criou o “Calendário Juliano” que evitaria novos erros. Para elaborar esta tarefa, trouxe de Alexandria o astrônomo grego Sosígenes e o que se fez foi uma baita confusão.

O ano de 46 a.C teria 445 dias de duração, para corrigir os desvios acumulados até então. Depois disso os anos teriam 365 dias e haveria 1 ano bissexto a cada 4 anos a partir de 45 a.C (que também seria bissexto). O início do ano romano, que era em 1º de Março foi deslocado para 1º de Janeiro, a partir de 45 a.C.

Em função dessas modificações, o ano de 46 a.C. ficou conhecido como o “Ano da Confusão” e apesar dos esforços, os anos bissextos que se seguiram não foram aplicados corretamente até o ano de 8 d.C, quando então finalmente passaram a ser regularmente contabilizados de 4 em 4 anos em todos os calendários. E assim permaneceu por mais de 1500 anos.

Algumas pessoas pensam que o ano é bissexto porque tem dois números 6 na quantidade de dias (366), o que está errado.

No antigo calendário romano, os dias tinham nomes com base no ciclo lunar e um mês dividia-se em três seções separadas por três dias fixos: Calendas (lua nova), Nonas (quarto-crescente) e Idus (lua cheia).

Os dias eram designados como o costume que temos em dizer um horário de 14:45h com sendo “15 para as 3”. Assim o dia 3 de fevereiro, por exemplo chamava-se “três dias antes da Nona de Fevereiro”. O dia 24 de fevereiro chamava-se “antediem sextum Calendas Martii”, ou seja “sexto dia antes da Calendas de Março”, ou sexto dia antes da lua nova de março.

Ao fazer a introdução de mais um dia no ano, Julio César escolheu o mês de fevereiro, e dentro deste mês escolheu por “fazer um bis” ou “duplicar” o dia 24, chamando-o de “antediem bis-sextum Calendas Martii”. Daí surgiu o nome “bissexto”, que passou a designar o ano que tivesse este dia suplementar.

Em 1582, o Papa Gregório XIII introduziu uma reforma no “Calendário Juliano” e criou o “Calendário Gregoriano”, que é o que utilizamos até hoje.

Mas a busca por um calendário perfeito não terminará nunca, apesar da precisão dos instrumentos de medida aumentar constantemente, pois o máximo que poderemos calcular será sempre um valor médio, já que o período em que a Terra dá uma volta em torno do Sol não é constante.



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